quinta-feira, 26 de abril de 2012

Considerações equilibradas sobre o Novo Código Florestal aprovado

O Novo Código Florestal, aprovado na Câmara dos Deputados neste dia 25 de Abril de 2012, trouxe avanços importantes e retrocessos graves.

Em seu conjunto, a Legislação Ambiental precisava ter sido reformulado para tirar mais de 90% dos agricultores do Brasil da ilegalidade, e atualizar a lei do país de forma que ela ficasse clara para o meio-ambiente e para os agricultores. A primeira versão do deputado Aldo Rebelo havia reunido as leis dispersas e dado uma clareza estrutural para o Novo Código Florestal, bem como uma fundamentação econômica baseada na diversidade regional do país. No Senado, Jorge Viana, com auxílio dos Ministérios do governo, aprimorou os pontos problemáticos, deixando-os mais precisos e equilibrados com novos pareceres técnicos e com a contribuição de cientistas. Novamente na Câmara, ao invés de se aprovar a versão acordada no Senado, a bancada ruralista modificou no relatório do deputado Paulo Piau os pontos de concordância e o resultado foi uma legislação que favorece tal visão primordialmente.

Em síntese, este novo Código Florestal avança na sistematização da legislação ambiental, dantes dispersa, contraditória e injusta, e agora clara e objetiva. Porém, retrocede  nos pontos que dizem respeito à recuperação de áreas degradadas e à proteção a áreas sensíveis (Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente). Isto só aconteceu porque os três principais envolvidos - governo, ambientalistas e agricultores - se equivocaram em suas posições:

a) O governo foi incapaz de articular de modo consistente um projeto ponderado desde o início, ora inteirando-se e debatendo, ora afastando-se da discussão e deixando de acompanhar devidamente a tramitação para trabalhar nos pontos problemáticos. Isto foi reflexo da própria crise de articulação política no governo.

b) O sectarismo dos ambientalistas, que sempre se mobilizaram contra qualquer tipo modificação desconsiderando os aspectos econômicos e a situação do agricultor (principalmente do pequeno), desqualificou o debate. Com isto, eles afastaram-se da disputa por uma legislação melhor e mais equilibrada, deixando o caminho livre para que os ruralistas (que são maioria nas duas casas) fizessem com que um projeto com sua identidade fosse aprovado.

c) O resultado final mostrou a cobiça dos ruralistas de quererem insistir num modelo equivocado de agricultura, ao mesmo tempo aliados à vontade de valorizar seus ativos sem perder área agriculturável e/ou custear a recomposição. Esta postura demonstra que a maior parte deles não está disposta a pensar numa forma harmoniosa da relação entre agricultura e meio-ambiente, que preserve o solo e as florestas para gerações futuras e garanta a segurança alimentar do país.

O que se espera, enfim, da Presidente Dilma é que ela tome uma decisão equilibrada: sancione a nova legislação e vete os pontos nos quais houver qualquer ameaça ao meio-ambiente. Outra alternativa que serviria como uma forma de reparação da ausência do governo em grande parte do debate, seria o veto integral para ganhar mais tempo e renegociar em novas condições uma nova versão do Código Florestal, mais aprimorado e com maior tempo de debate. Esta última opção obrigaria ao desgaste de reeditar a MP que suspende as multas dos agricultores, porém jogaria tal debate para 2013 após as eleições.

Se optar pela segunda opção, é muito importante que a faça reconhecendo a necessidade de reescrever o Novo Código Florestal mantendo o equilíbrio entre preservação ambiental e produção agrícola. Lembrando que o Código Florestal legisla apenas sobre as áreas de agricultura e pecuária do país, ou seja 31% do território nacional (não legisla sobre áreas urbanas, reservas indígenas e parques florestais), e que o Brasil hoje tem 61% de suas florestas preservadas. Portanto, não estamos tratando do fim das florestas no país, mas de uma forma de preservar melhor o solo, a fauna e a flora nas áreas de agricultura e pecuária, sem correr o risco de expulsar o agricultor do campo para uma nova onda de êxodo rural para as periferias já saturadas das grandes cidades. Em síntese, não se pode reduzir o debate à visão estritamente florestal e ambiental, tampouco à visão unicamente econômica e social. É necessário uma decisão equilibrada.

Vejamos qual será a decisão da Presidente. Está em suas mãos o futuro das florestas e da agricultura do Brasil, sob a responsabilidade de seu compromisso de campanha de garantir o desenvolvimento sem destruir a natureza.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A "Santa" Inquisição na Idade das Trevas e hoje

Já que estamos na Semana Santa, na qual os cristãos rememoram a crucificação de Jesus, vamos lembrar de uma outra santa: a "Santa" Inquisição.


A Idade das Trevas

A Inquisição da igreja católica durou 588 anos, deixando um rastro de milhões de pessoas torturadas, assassinadas, queimadas, decaptadas, enforcadas e empaladas (uma lança atravessava o corpo do anus à boca).

Os motivos para tais penas iam desde condenar aqueles que praticavam religiões antigas (acusados de bruxaria e magia), a defensores de ideias proibidas como: dizer que o sol girava ao redor da Terra, que as estrelas são sóis e que o universo é infinito.


Mas não foram apenas os católicos que cometeram tais crimes. Muitas  denominações protestantes e evangélicas fizeram os mesmo. Seja nas guerras contra judeus e muçulmanos, seja na conversão forçada de índios e povos pagãos que praticavam cultos tradicionais ligados à natureza. Esta é uma sombra coletiva de todos os cristãos.


Se somarmos os crimes das cruzadas, inquisições, guerras religiosas, e tantos outros atentados de ações de terror religioso contra pessoas, povos, países, culturas e religiões, todas elas feitas em nome do cristianismo e da defesa da religião cristã, temos entre 20 a 40 milhões de pessoas mortas.


Portanto, se a dor, o sofrimento e o assassinato de Jesus são capazes de sensibilizar qualquer ser humano, lembrem-se, cristãos, de que o sofrimento daqueles que morreram assassinados por não aceitarem ser convertidos, foi tanto ou muito mais dolorido do que o de Jesus.


Jesus foi um. As vítimas da inquisição foram milhões. Tantas quanto em toda II Guerra Mundial!


A intolerância religiosa nos dias de hoje

Hoje voltamos a ver a intolerância religiosa crescendo no mundo.

O fanatismo se propaga nos vários tipos de religiões, e muitos movimentos religiosos começam a tomar o governo e a criar leis. Ao mesmo tempo, estouram casos de pedofilia, estupros e outros crimes sexuais cometidos por padres, pastores e sacerdotes. Cada mês surge nova denúncia de trambiques financeiros e de evasão de divisas por bispos.

Católicos, protestantes, evangélicos, todos novamente em guerra para disputar fiéis, que são tratados como consumidores, numa elaborada estratégia de marketing para ganhar almas de pagadores de dízimos. Se antes a igreja católica vendia indulgências que eram terrenos no céu, hoje evangélicos têm débito em folha de pagamento, em conta ou no cartão de crédito.

Acumulam fortunas e compram redes de televisão, de rádio, constroem templos gigantescos, e vivem nas maiores mansões passeando de helicóptero. Sempre pregando intolerância e o ódio contra tudo o que não são eles. Assim, estimulam constantes ataques de gangues religiosas a adeptos de cultos afro-brasileiro ou de outras práticas que, como a inquisição, acusam de serem cultuadores de diabo.

Rememorar a Inquisição não é fazer propaganda contrária ao cristianismo tampouco ficar mexendo com sombras do passado. É alertar para um perigo eminente que é a emergência do fanatismo religioso e a apropriação dos órgãos de Estado por instituições religiosas.

O que deu poder à Inquisição foi exatamente quando ela se associou aos reis e senhores feudais para exercer seu poder. Hoje, o movimento dos fanáticos e intolerantes é ganhar postos no governo e eleger vereadores, deputados e senadores. Assim, progressivamente moldam o Estado à sua imagem e semelhança. Como fez a inquisição.

domingo, 1 de abril de 2012

Dívida: o motor do capitalismo


O motor do capitalismo é a dívida. Países, organizações, empresas, famílias e indivíduos só conseguem viver ou expandir se estão endividados. Quanto mais se endivida, mais se é impulsionado a endividar. E assim se pagam juros, spreads e serviços da dívida e o resultado é sempre o mesmo: quanto mais endividamento, mais o capital financeiro segue concentrando riqueza nos bancos, governados por um cartel de poucas famílias como os Rockfellers, Morgans, Rothschields, Carnegies, dentre outros.

Essas famílias controlam o FED (Banco Central dos EUA), que emite a quantidade de dólares repassada aos bancos, que emprestam para países, organizações, empresas, famílias ou indivíduos em todo o mundo. Só que o dólar não tem lastro em ouro ou em qualquer moeda, o que garante seu valor são bombas atômicas, porta-aviões e todas as suas armas de destruição em massa somadas ao soft power. Uma crise, seguida de uma guerra, apenas os ajudam a comprar mais empresas quebradas e a fornecer mais empréstimos aos países para comprar armas e se reconstruírem. Detalhe: numa guerra eles sempre financiam os dois lados!

Nessa lógica, eles sempre ganham, porque compram a mídia, compram consciência com seus doutores de Harvard ou da PUC/RJ, e compram os políticos que em troca de financiamento de campanha aceitam submeter-se às suas imposições:

a) tornar o Banco Central independente de governos para eles terem o controle das economias nacionais;
b) privatizar empresas públicas para eles comprarem;
c) aceitar tratados de livre comércio e desregulamentar a economia para eles estenderem seus tentáculos, quebrando qualquer concorrência e mantendo a dominação do sistema imperialista.

Para quem ainda acredita em democracia e liberdade no capitalismo, lembre-se da frase do Barão Rothschild: "Dê-me o controle do dinheiro de uma nação e eu não me importo quem faz as leis".

Em síntese, o capitalismo é o sistema da escravidão. Da escravidão pela dívida, que ironicamente rega e faz funcionar todo o sistema, a custo de crises, guerras e usurpação dos direitos dos povos. Como vencer um gigante como este? Organizando-se coletivamente.

domingo, 18 de março de 2012

A Pirâmide da dominação imperialista


Prestem bem atenção neste gráfico, inspirado na imagem da nota de 1 dólar, e compreendam como funciona a dominação no sistema capitalista-imperialista. Esse são os princípios da religião do "deus-mercado", representado pelo "Olho da Providência", que é uma apropriação indevida de um simbolismo egípcio, da mesma forma que Hitler fez com a suástica que é um símbolo hindu.


Os Sete Degraus da Pirâmide

1) No topo da Pirâmide está a oligarquia financeira internacional, algumas poucas famílias que controlam a emissão e o valor de todo dinheiro do planeta, que ao se transformar em capital multiplica-se indefinidamente para retornar a elas mesmas, ainda mais valorizado.

2) Esta oligarquia financeira tem o controle sobre o Banco de Compensações Internacionais com sede em Basileia (Suíça), que dá a garantia de crédito aos bancos em todo o mundo em nome da "estabilidade monetária", do controle inflacionário e de outros mitos defendidos como uma "religião do deus-mercado".

3) A serviço deles estão o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, que controlam os sistemas financeiros nacionais através do endividamento externo e interno, e de seu receituário recessivo que submetem nações inteiras a crises sistêmicas, como a que passou a América Latina nas décadas de 1980/1990 e a que agora passam os países da periferia europeia como a Grécia.

4) Os bancos centrais nacionais são "independentes" ou "autônomos", o que significa que eles não têm controle político, mas sim controle financeiro através da banca internacional. Destes, o FED (Banco Central dos EUA) tem uma posição fundamental no centro da pirâmide, pois desde 1971, o dólar não tem lastro em ouro e pode ser emitido infinitamente de acordo com a estratégia dessa oligarquia. Assim, eles podem fabricar um ciclo de prosperidade ou uma crise, a depender do que interesse mais no momento. Com crescimento ou recessão eles sempre ganham, pois nos momentos expansão eles aumentam seus lucros e nos de crise conseguem concentrar mais capital comprando aqueles que quebram e se endividam.

5) Para garantir tal domínio, seus tentáculos se estendem aos grandes bancos, que através das taxas de juros, do controle do câmbio e dos impostos garantem o comprometimento primário das receitas públicas (o famoso superávit primário).

6) Detentores dos capitais, esses bancos tornam-se acionistas majoritários das grandes empresas e corporações transnacionais e multinacionais, que submetem ou se associam aos congêneres nacionais, procurando prioritariamente controlar setores estratégicos como recursos naturais, infra-estrutura, energia, alimentos, saúde, educação e principalmente a mídia, que dá a sustentação ideológica ao sistema.

7) Tais companhias financiam as campanhas de candidatos em todos os países onde existe financiamento privado para as eleições. Os eleitos passam a atender apenas a tais interesses, submetendo o Estado e a sociedade a esse projeto. Se discordarem não se reelegem porque não tem recursos para a campanha.


O que sustenta a Pirâmide?

1) Na base da pirâmide está o povo de todas as raças, culturas, crenças e ideias. Estão todos os animais a serviço de hábitos alimentares historicamente determinados, bem como espécies ameaçadas pela expansão da agropecuária. Estão os camponeses e trabalhadores da cidade que geram as riquezas para alimentar o topo.

2) Quem sustenta econômica, ideológica, financeira e militarmente o sistema é o governo dos EUA, em coalizão com a União Europeia, Israel e países aliados por vontade própria ou por coação. A ONU e os órgãos multilaterais são dominados por eles, porém, encontram resistência de países como os BRICS e outros emergentes.

3) Mas o que realmente garante a dominação do sistema é o hard e o soft power:
a) O soft power é o controle ideológico e da informação através da mídia e da internet. Cada mensagem publicada, e-mail enviado, conversa por Skype, MSN ou Facebook é guardada, vigiada e documentada pelos serviços de inteligência dos EUA. Todos os aparelhos celulares são rastreados, e programas de espionagem estão inseridos em sistemas operacionais de código fechado como o Microsoft Windows e o OS X da Apple. Da mesma forma, desconhece-se onde geograficamente ficam armazenados os servidores de empresas como Google, Yahoo, Facebook e outros gigantes da informática.
b) O hard power é a guerra e os conflitos, que têm a OTAN como instituição que executa imperativos como: a) invasões como as do Iraque e da Líbia para se obter o controle do petróleo; b) a guerra "eterna" de Israel contra a Palestina para promover um "choque de civilizações" e alimentar o ódio entre "ocidente" e "o resto"; c) a guerra do Afeganistão para se obter o controle geopolítico da Ásia central (ao norte a Rússia, a sudeste a Índia, a oeste o Irã e a leste a China).
Vale observar que o domínio espacial dos satélites garante o hard e o soft power.

4) Entendendo a lógica do sistema, consegue-se observar que toda a produção no mundo serve para sustentar um verme parasitário, que é o sistema capitalista como um todo, no qual alguns milhares de famílias absorvem a riqueza produzida por todos os 7 bilhões de habitantes do mundo. Outras, intermediárias, se beneficiam de parte dessas riquezas e por isto tornam-se árduas defensoras do sistema, não percebendo que servem apenas para perpetuar o modelo em que um maior contingente se vê explorado e excluído, usufruindo-se de míseras migalhas.
Portanto, em todo o mundo a luta para reverter esse quadro será uma conjugação de esforços nacionais e internacionais, troca de informações e unidade nas ações. 


Como inverter a lógica da Pirâmide?

O princípio fundamental é o surgimento de novos valores na base da pirâmide, que se baseiem na paz, na solidariedade e na cooperação, com todos os povos aceitando-se e convivendo-se na diversidade, de forma harmônica e sustentável com o meio-ambiente e a biodiversidade, e procurando elevar os padrões de vida da sociedade. Assim, cada estrutura da pirâmide deverá ser reestruturada:

7) É necessário que haja uma verdadeira democratização do sistema político, sendo para isto eleitos aqueles que estejam ligados a causas anti-imperialistas, democráticas e populares, sem vínculos com o capital financeiro. Aqueles que se comprometem com esquemas de privatizações ou com projetos que beneficiem o banca financeira não podem ser eleitos em quaisquer instâncias. Por isto deve-se exigir o fim do financiamento privado das campanhas.

6) Isto só será conquistado com uma mídia independente, a internet livre, e a democratização dos meios de comunicação. O controle público sobre as corporações será determinante, e os interesses empresariais devem ser submetidos aos interesses públicos. Se necessário deve-se estatizar empresas estratégicas ou aquelas dominadas pelo capital financeiro internacional. 

5) Todo apoio deve ser dado a cooperativas de crédito. Bancos públicos devem reduzir drasticamente o custo do crédito e estimular iniciativas alternativas de emissão de moedas, focadas na cooperação e no desenvolvimento social e ambiental.

4) O Banco Central precisa ser controlado e administrado de acordo com a necessidade do país. Seus membros devem ser eleitos e não podem possuir vínculos com a oligarquia financeira internacional, que é quem atualmente os controla. 

3) O FMI, o Banco Mundial e devem perder suas autoridades, sendo minados por dentro e por fora. Em seus lugares, devem emergir iniciativas de bancos regionais e nacionais, com foco no desenvolvimento e na integração solidária.

2) O Banco de Compensações Internacionais perderá o seu poder quando o dólar deixar de ser a única moeda de reserva internacional. Para isto é necessário uma nova arquitetura do sistema financeiro internacional, que imploda os tratados de Basileia, a ordem econômica pós-Bretton Woods e do pós-Guerra Fria.

1) Compreender o topo do sistema financeiro é o centro da questão. Para isto, vale destacar que o imperialismo é um subproduto do capital financeiro, que é a fusão do capital bancário com o industrial. A manipulação midiática, as guerras fabricadas, a fome e a miséria no mundo apenas sustentam essa máquina. Não se pode ignorar que é nos EUA onde está o centro do poder mundial. Porém, esse grupo que tomou de assalto o Estado, o governo, o congresso e as instituições estadunidenses, não pode ser confundido com o povo deste país. 

A defesa da paz, da democratização da comunicação, da transparência dos processos políticos, a socialização dos meios de produção e o controle social do sistema financeiro devem ser os esforços conjugados de todos os povos que trarão uma Nova Era para a humanidade.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Da Verdade Absoluta à Insignificância Histórica

Toda realidade é histórica, seja ela material, moral ou espiritual:

1) O cristianismo tem pouco mais de um milênio e meio. Jesus não era cristão, era judeu, e a religião que o reivindica foi criada alguns séculos depois dele. Por fatores políticos e de guerra, o cristianismo chegou à dimensão que tem hoje. Talvez se o Imperador romano Constantino não tivesse se convertido ao cristianismo, a Basílica de Aparecida fosse feita em louvor à deusa Diana ou à deusa Vênus. Talvez se os espanhóis não tivessem derrotado os mouros na Península Ibérica, hoje o Brasil poderia ser um país islâmico e poucos teriam coragem de beber uma cerveja “estupidamente gelada” sob a égide da xaria.

2) Valores morais como a noção de família nuclear monogâmica são puramente históricos. Existiram e existem famílias poligâmicas (homens com várias mulheres), poliândricas (mulheres com vários homens), coletivas (todos se relacionam com todos e os filhos são de toda a tribo), dentre tantas outras. Para os gregos antigos, homossexualismo masculino e feminino era o padrão social. Para os indianos atuais, as filhas devem se casar antes dos dez anos. Para os esquimós, bons costumes recomendam oferecer a esposa para passar uma noite com os visitantes. Pederastia? Pedofilia? Promiscuidade? Não... apenas valores históricos.

3) O capitalismo não tem mais do que três séculos. Antes dele houve outros sistemas econômicos e depois dele seguirão havendo novos. Como qualquer outro, possui suas contradições e por isto, crer em sua eternidade não condiz com a experiência histórica. Até mesmo porque como no escravismo e no feudalismo, o capitalismo foi incapaz de dar a liberdade e a igualdade prometida sob as guilhotinas da Revolução Francesa, mas especialmente por ter se convertido em um sistema que possui uma produção social e ao mesmo tempo uma acumulação privada, resultando numa insolúvel contradição original.

Portanto, muito do que se defende como verdades absolutas não passa de valores históricos datados e circunscritos temporal e espacialmente. Verdades tão passageiras quanto a existência de um pequeno planeta com alguns bilhões de anos em um universo com alguns trilhões de anos. Um planeta no qual séculos ou milênios são insignificantes, e no qual uma vida humana longeva de 7 ou 8 décadas é tão curta quanto a de um cogumelo que nasce na aurora e antes do meio-dia já se pulverizou para no dia seguinte dar a vida a novos cogumelos.

Por tudo isso, a arrogância humana não passa de outra insignificância histórica perante a imensidão do cosmos. Grande não são seres humanos iluminados que criaram religiões, dogmas e doutrinas, ou magníficos pensadores, filósofos ou pesquisadores que descobriram alguma lei científica. Grande é o Sol, de onde toda a vida se origina e para onde toda vida retorna. Porém, mesmo o Sol é insignificante perante o eterno ciclo de expansão e contração do universo. Um ciclo de nascimento, vida, morte e renascimento que se reproduz no macro e no microcosmo, e no qual tudo está inserido. Tanto em cima quanto embaixo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O mecanismo dos juros

Desde FHC, Lula e agora Dilma, o Banco Central tem "autonomia" para estabelecer a política monetária e cambial do país. Com isso, eles próprios definem quanto o governo pagará de juros aos banqueiros. Como sua diretoria é formada por aqueles que construíram sua carreira em bancos e no sistema financeiro, eles SEMPRE optam por juros que beneficiem os bancos.

Para ilustrar um exemplo, o ex-Presidente do Banco Central Henrique Meirelles tinha uma aposentadoria anual de US$ 1 milhão do Bank Boston, onde construiu sua carreira. Como ministro, ganhava em torno de R$ 25 mil por mês. Em geral as pessoas costumam trabalhar para quem paga mais. Será que ele fugia à regra? Podemos ver pelas suas atitudes em sempre favorecer o capital financeiro que não.

Aí a história se repete no atual governo: os bancos pressionam para aumentar o superávit primário (dinheiro público destinado ao pagamento de juros) em troca da redução nas taxas de juros. O governo cede, faz cortes e ajustes fiscais e eles derrubam juros a conta gotas. O Ministro da Fazenda reclama, mas tudo continua igual. Um belo jogo de cena que sempre encontra um mecanismo de aumentar o lucro dos bancos e cortar despesas na saúde, educação, cultura, etc.

Em números, neste ano, o governo cortou aproximadamente R$ 55 bilhões do orçamento. O último corte na taxa selic feito pelo Banco Central foi de 0,5% (hoje está em 10,5%, continuando a maior do mundo). O Orçamento da União para 2012 manteve quase 47,5% destinado ao pagamento de juros, abatimentos e serviços da dívidas, ou seja, aproximadamente R$ 1 trilhão de reais.

Em resumo, sob supostos argumentos técnicos, eles aumentam a transferência de recursos públicos para o setor financeiro e a mídia papagaia essa mentira como se fosse algo incontestável. E todos aceitam e ficam culpando os políticos corruptos pelos problemas do país...


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A espiritualidade ateia de Frida Kahlo

Ontem estava lendo um artigo que citava a pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), e decidi rever um pouco de suas obras. A surpresa foi que reencontrei várias referências a simbolismos herméticos, ao paganismo e à uma formação espiritual que jamais havia visto algum crítico de arte ter atribuído a ela.

A força e a beleza em suas obras mexe profundamente com as pessoas, que, por se atentarem quase que exclusivamente aos sofrimentos de sua vida, ignoram os aspectos mais existenciais e profundos que ela deixou registrado. Invertendo essa chave, é possível sacar a profundidade espiritual de alguém que se dizia ateia em um país extremamente católico que é o México.


O apelo sensual de suas obras é forte, reforçando o simbolismo alquímico de sua personalidade andrógina (sol/lua), presente em muitos de seus quadros e em suas relações bissexuais com homens e mulheres. Outra coisa que chama a atenção é como ela mostra a ligação da carne, da matéria, com a Terra, como no quadro Raíces (1943), mas especialmente em Abrazo Amoroso (1949), que é uma representação panteística da relação homem-mulher/natureza-espírito. Ou seja, tudo conectado: a vida, a natureza, o espírito.

Em um de seus auto-retratos, ela mostra-se usando um cabelo em formato de infinito (8 deitado), que é o símbolo do Arcano 1 do Tarô ("O Mago"). No quadro Venadito (1946), no qual aparece um veado atacado por muitas flechas, logo ao lado de sua assinatura deixa a palavra "carma", mostrando a compreensão da lei da causa e efeito e do sentido de tudo o que viveu e sofreu. São também frequentes as representações dela e de seu marido Diego Riviera com o chacra do terceiro olho ativado. Ressalto, tudo isto de alguém auto-caracterizada como ateia!
Mas talvez seja em Moses (1945) que ela sintetize a trajetória espiritual do planeta, procurando não apenas apresentar os deuses de vários panteões (destacando os egípcios e astecas), líderes espirituais da humanidade, mas também importantes filósofos, dentre os quais Karl Marx, presente em sua vida pela própria devoção à luta pelo socialismo no Partido Comunista.


Em uma de suas últimas frases, ela mostra a maturidade espiritual alcançada: "Espero alegre a saída e espero nunca voltar". Ironicamente, isto reafirma que alguns ateus provam-se espiritualmente mais adultos do que muitos religiosos, que parecem estar na infância ao estabelecerem uma relação de dependência afetiva com o cosmo, atribuindo-lhe uma solitária separação paterna.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A universalidade mítica, política e psicológica da saga Star Wars


Com a tecnologia 3D, foram relançados os seis episódios da saga Star Wars, de George Lucas, para os cinemas. Embora não haja novidade, é uma boa oportunidade rever esta série que influencia gerações desde o final da década de 1970. A universalidade desta obra está em condensar em uma única história, rica em detalhes e beleza, os aspectos mais profundos e obscuros da psicologia humana, as contradições políticas crônicas enfrentadas pelas diversas civilizações, e as recordações dos mitos que compõem a herança espiritual dos povos.



A saga do herói anti-herói, o “anjo caído” levantado

Por mais contraditório que possa parecer a priori, o herói da série é o próprio vilão. Ao ser descoberto pelos Cavaleiros Jedi’s, uma Ordem de guerreiros magos com a missão defender a República Galáctica, o jovem Anakin Skywalker passa a ter um treinamento diferenciado. Inicia-se como Aprendiz Padawan, eleva-se subitamente à Cavaleiro Jedi, mas seu processo iniciático é interrompido antes de tornar-se um Mestre Jedi. Seduzido pelo poder, acredita-se apto a ser maior que a própria morte. O apego o faz escravizar-se ao medo, assim explicado nas palavras do Mestre Yoda: “o medo é o caminho para o lado sombrio; o medo leva à raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio leva ao sofrimento”. E assim, o mais brilhante dos cavaleiros Jedi converte-se ao lado sombrio da Força, e ao tornar-se Darth Vader perde não apenas a mulher que amava, mas todos os amigos que o auxiliaram a tornar-se o que havia sido.

A tragédia de sua queda é estrondosa. Ao aceitar submeter-se ao Lord Sith, o senhor das trevas, seu lado Darth Vader assassinou seu lado Anakin Skywalker. A partir de então deixou de ser um homem bom e justo para se tornar cruel e sanguinário. Passa a perseguir implacavelmente todos os outros Jedi’s na galáxia, e não hesita em matar até crianças. Porém, ao enfrentar seu Mestre Obi Wan Kennoby, aprende que a arrogância tem limites, e que sempre haverá alguém mais poderoso do que ele. Como resultado, perde parte de seu corpo, torna-se metade máquina, metade homem, e a inesquecível máscara de Darth Vader passa a cobrir seu rosto.

O inesperado porém aconteceu. Antes de morrer, sua ex-esposa deu a luz a dois irmãos gêmeos, Luke e Leia, e foi o primeiro quem descobriu que ainda havia bondade no pai. Mesmo reconhecendo ser muito tarde para voltar atrás no que já tinha feito, foi nos momentos finais de sua vida, após ter sido derrotado pelo filho, que pela compaixão de vê-lo sendo assassinado pelo Imperador, Darth Vader praticou seu ato final de heroísmo: destruir o senhor das trevas para morrer junto dele, encerrando assim a linha sucessória dos Siths, e cumprindo a profecia de restabelecer o equilíbrio da Força. Finalmente a máscara de Darth Vader pôde ser retirada, devolvendo-lhe a feição humana, mesmo que deformada, e dando-lhe o direito de que seu último suspiro fosse feito novamente como Anakin Skywalker.




República, Império, Revolução, Nova República: o ciclo infinito


Esta tragédia familiar ocorre sob algo que recobra fatos políticos de importância singular na história das civilizações. A República Galáctica, que ao ser fundada representou a união dos povos, a democracia dos planetas e por milênios manteve os sistemas solares em paz, corroia-se por dentro. Ao mesmo tempo em que a burocracia detinha o poder sob suas decisões políticas, as disputas mesquinhas davam espaço para que a Federação do Comércio, o Clã Bancário e a Associação Tecnológica pudessem formar uma aliança separatista, que daria início às Guerras Clônicas.


Por trás de todo este movimento, sordidamente o Lord Sith infiltrou-se no sistema político, chegando ao posto máximo da República como seu Supremo Chanceler. A partir disto, foi capaz de ter sob seu controle tanto os separatistas quanto os integralistas, e usou a guerra para seus dois grandes objetivos: destruir a Ordem Jedi e converter a República em um Império. A ironia é que no momento em que é fundado o Império Galáctico, o senado ovaciona em pé e sob um estrondoso aplauso o novo Imperador, que seguramente afirma: “enfim, teremos a PAZ”. A mesma paz que sabiamente o diretor soube associar ao ex-presidente dos EUA, George W. Bush, quando Darth Vader disse: “quem não estiver ao meu lado é meu inimigo”. Portanto, mesmo a sublime busca pela paz pode ser usada para os mais mesquinhos objetivos.


De um Império opressor, com uma gigantesca Frota Estelar e uma poderosa arma chamada Estrela da Morte, capaz de explodir um planeta inteiro, surge em seu próprio seio a contradição para destruí-lo: a Aliança Rebelde. Visivelmente em desvantagem desde o início, foi com o poder da fé em suas ideias e princípios, que ninguém menos que o filho de Anakin Skywalker, o próprio Luke Skywalker, foi capaz de destruir a Estrela da Morte e a passar a liderar a Rebelião. Com avanços e retrocessos, vitórias e derrotas, perdas e ganhos, foi sob as mais difíceis condições, numa guerrilha na selva de uma lua florestal, que os rebeldes venceram o Império como fizeram os vietcongs. E assim, o ciclo se completa, com o desafio aos revolucionários vencedores de construírem a Nova República.




A Força: espiritualidade, mito e magia

Anakin Skywalker não teve pai. A mãe virgem simplesmente o concebeu pela vontade da Força. Em sua juventude, levou esperança para aqueles não tinham, e depois de cair na escuridão e reascender na luz, ressuscitou ao lado de seus Mestres Yoda e Obi Wan Kennoby. Ele é, portanto, ao mesmo tempo Cristo como Anakin e Lúcifer como Vader. Isto porque nenhum ser humano é apenas luz ou apenas sombra, mas da contradição desses elementos pode nascer o mais glorioso herói ou o mais terrível vilão. Nas profundezas de sua alma reside a potencialidade de realizar seu caminho de acordo com suas próprias escolhas.

É para orientar nas escolhas corretas que o Mestre Yoda procura instruir o jovem Luke Skywalker a não se deixar cair nos mesmos erros que o pai, Anakin Skywalker. Nos diálogos iniciáticos, como ensinado em qualquer das antigas Escolas de Mistérios, o poder interior reside na fé em si mesmo, no direcionamento da vontade e no domínio das próprias paixões. Significa ter a compreensão racional, porém entregar-se à intuição e dar espaço à fluidez da Força. A Força é a energia que movimenta tudo que existe, é o que dá vida à existência de tudo. A Força domina e ao mesmo tempo é dominada, pois não existe separação entre o Universo “criador” e o Ser “criatura”, porque ambos só existem por estarem simbioticamente conectados. A Força, portanto, é algo muito maior, livre de conceitos doutrinários estruturantes, sendo assim capaz de ser interpretada e aceita tanto por ateus e como por religiosos.

Com a assessoria de Joseph Campbell, George Lucas foi capaz de trazer grandes símbolos e imagens captadas no imaginário social coletivo. Vivendo em uma selva pantanosa, o Mestre Yoda é ao mesmo tempo um xamã e um monge budista, que encontra suas respostas no silêncio da meditação. As crenças politeístas dos povos que vivem na natureza recordam os princípios do paganismo. A já citada saga do herói de Anakin e Luke Skywalker é um misto do culto egípcio de Hórus, do persa Mithra, do hebreu Jesus e do nórdico Thor. Como não podia deixar de ser, os nobres Cavaleiros Jedi em muito recordam os Templários, bem como suas iniciações em três graus remetem ao sistema maçônico. Por fim, a unidade de todas essas crenças e mitos ocorre em uma galáxia mais do que “globalizada”, onde todos os tipos de raças e espécies de seres alienígenas aprendem a conviver com suas diferenças e limitações.



Há muito tempo atrás, numa galáxia distante...

Apesar de todos esses eventos terem ocorridos em outro espaço-tempo, sua mensagem condensa as três buscas do ser humano no aqui-agora: a) conhecer a si mesmo, a partir do entendimento da dualidade entre o certo e o errado na busca da construção de si mesmo enquanto herói; b) do desafio de organizar-se coletivamente compreendendo as contradições do sistema político e econômico, e entendendo-os como cíclicos e transitórios, passiveis de serem transformados; c) a busca por algo além da própria existência, que dê o sentido a todo o teatro montado para a vida e para a representação de cada um como um personagem no grande palco universal.


São por esses fatores que as duas trilogias da série Star Wars servem para todas as idades, para todas as gerações e para todos os povos do planeta. Porque todos vêem nela um pouco de si, de seu país e de suas crenças. Com a ousadia de integrar todas elas, esta é sem dúvida uma das maiores obras artísticas de todos os tempos.


E que a Força esteja com todos!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Exercício de Historicidade: “Uma estalagem inglesa em 1786”

Aos que não acompanham o debate teórico sobre a História como área do conhecimento, ela pode ser compreendida de forma sintética como a ciência do tempo. Não o tempo no sentido da Física, mas o tempo no qual o ser humano, as sociedades, as civilizações, as estruturas econômicas, as culturas ou quaisquer objetos criam-se, conservam-se, transformam-se ou destroem-se.

Como qualquer ciência, a História possui seu método ou métodos, a depender de com qual escola ou corrente de pensamento se está trabalhando. Chamamos assim, de historiografia a escrita da história, e de historicidade aquilo que for relativo à história. Para reconstruir a historicidade de algum objeto, o historiador age como um detetive, buscando pistas que possam formar um quebra-cabeça. Aonde não houver as peças que completem, ele procura encaixar com informações análogas que completem uma composição lógica e coerente. O resultado final vai depender, portanto, de o quão criativo ele foi ao reconstruir um quadro mais amplo a partir de seus ferramentais.

Esse resultado pode não ser tão final. Em geral representa a verificação de uma hipótese, que pela sua análise foi ou não averiguada. No caso de outro historiador discordar de suas conclusões, seja pelo método, pela construção lógica ou mesmo pelas limitações da fonte, nasce então um debate historiográfico sobre a temática. O único vencedor deste debate será a História enquanto ciência, que será vista e contada sobre diversificados pontos-de-vista. Esta diversidade existe porque não há neutralidade em qualquer escrita, pois desde a escolha do objeto, do método e mesmo da sequência lógica, há sempre uma intervenção direta do historiador, de seus valores, sua visão de mundo, e toda subjetividade e objetividade que o acompanham.

Esta curta introdução foi para propor um exercício de historicidade.

Quando estive viajando pela Inglaterra em 2011, hospedei-me em antigas estalagens com vários séculos de história. Em uma delas, em Glastonbury, vi um cartaz no qual haviam regras de hospedagem que remetiam ao ano de 1786. Ao pesquisar, descobri que este cartaz é bastante difundido como uma curiosidade histórica em várias outras hospedagens, não sendo originário daquela especificamente. Porém, numa curta análise, é possível fazer uma reconstrução de parte da visão de mundo que permeava as mentes da época. Pode-se compreender aspectos culturais, sociais e econômicos e disto montar um quadro mais amplo de questões, enumerando tópicos, assuntos e problemas. Faremos aqui este exercício, com o intento de construir algo educativo.

Apesar de estar num inglês mais antigo, segue a tradução aproximada do cartaz:


___
Não aceitamos ladrões, faquires, malandros e ambulantes
Não acolhemos vagabundos ou mendigos maltrapilhos
Não estapeie ou faça cócegas nas moças
Não bata as canecas na mesa
Não é permitido cachorros na cozinha
Sem brigas de galos
___
Armas de fogo, porretes,
Punhais e espadas
Devem ser entregues ao estalajadeiro
Sob sua custódia
___
Cama para 1 noite - 1 shilling
Estábulo para cavalos - 4 pences
1786


Análise do cartaz:

Uma estalagem (Inn) geralmente segue um padrão medieval, de ter uma taberna embaixo e uma hospedaria em cima. Em um mundo no qual não existiam veículos como carros ou trens, e a distância percorrida a pé ou a cavalo entre o que hoje consideramos curtos trajetos era feita em dias, essas estalagens eram importantes locais de paragem para viajantes de todo tipo. Pelas regras deste cartaz, esta estalagem procurava diferenciar-se por estabelecer certos “padrões de decência”, de acordo com a moralidade da época, visto que o que proibia era o convencional em outras.


Para contextualizar, uma importante informação no rodapé é central para compreender o espírito da época: o ano de 1786. A Inglaterra nesta conjuntura ainda era um país de analfabetos e a Revolução Industrial começava a engatar. Isto significa que era uma nação em transformação, no qual o fluxo de comércio e transporte seguia em crescimento, bem como as migrações internas no país. Era, desse modo, uma sociedade rural em vias de urbanização. Portanto, o pacato movimento de estalagens em tempos medievais, passava a ter uma fase de ascensão, o que justificava adotar tais padrões e regras, expressas no cartaz.

O cartaz começa deixando claro aqueles que não são bem-vindos: "ladrões, faquires, malandros e ambulantes", considerados como pessoas capazes de atrair quaisquer tipos de confusão. Era muito comum antes do surgimento das ferrovias um ladrão cometer um crime numa cidade e refugiar-se em outra o mais distante possível, pois exceto se realmente fosse um criminoso importante, não valeria a pena para as autoridades policiais de uma pequena cidade ou vilarejo da época sairem numa busca vã. No máximo espalhavam cartazes de "Wanted", ou seja, "Procurado" para as autoridades de outras localidades o deportarem em caso de prisão.

Por faquires, compreendam-se os charlatões que praticavam truques de mágica por onde passavam e que costumavam enganar pessoas aplicando golpes e depois desaparecendo. Tais golpes sempre envolviam, obviamente, dinheiro. Costumavam atribuir a si mesmo poderes sobrenaturais, que na verdade não passavam de truques baratos, capazes de enganar uma população desinformada que ficava surpreendida com seus espetáculos ensaiados. Isto também valia para os "malandros, velhacos e marotos" que aplicavam seus golpes de maneira mais crua e direta, em geral trapaceando no jogo e vendendo relíquias falsificadas.


Os ambulantes citados, são uma tradução adaptada da palavra "tinkers", que se fosse convertida ao português de forma literal seria, para os tempos atuais "funileiro". Porém, está se analisando uma sociedade pretérita, na qual predominavam pequenos vilarejos, onde a demanda por serviços de reparação era restrita. Portanto, um "tinker" era em geral ambulante, viajando de cidade a cidade, vilarejo a vilarejo, fazendo reparações a objetos metálicos ou mesmo de madeira. Por não ser bem-vindo na estalagem, é muito provável que esta fosse uma profissão mal vista, tanto quanto todas aquelas que estivessem desligadas de um enraizamento com a terra ou com o local de origem. Sem dúvidas isto seria um resquício de uma ideologia feudal, na qual forasteiros de qualquer espécie pudessem representar perigo à pacata vida campesina de uma Inglaterra em rápida transformação.

Ao ressaltar que não acolhiam "vagabundos" (ou vadios) nem "mendigos maltrapilhos" (ou pulguentos), consideradas pessoas desocupadas, a hospedaria procurava distanciar-se do que era associado à ideia de sujeira. Estamos nos referindo à uma sociedade na qual a ideia de higiene ainda não estava constituída, mas que existia, de acordo com o padrão da época, a possibilidade de diferenciar o que é limpo do que é sujo. Isto fica claro também na relação com animais, em que no caso do cartaz são citados os cães, que circulavam na taberna para se alimentar dos restos deixados pelos hóspedes e não deveriam circular pela cozinha (até para não comerem o que estava armazenado ou sendo cozido). Além dos cães de rua que viviam ao redor da estalagem, haviam aqueles que eram importantes companhias dos viajantes. Com o faro treinado, os cães poderiam auxiliar na caça de alimento para quem faz uma viagem por entre bosques, e até mesmo para evitar uma cilada de bandidos em estradas que não tinham nenhum tipo de vigilância, principalmente à noite. Este era mais um motivo pelo qual uma estalagem era muito importante na época: evitar viajar à noite.


O pedido para não estapear ou fazer cócegas em moças revela várias questões. A palavra "wenches", em desuso no inglês contemporâneo, pode ser também compreendida como meretriz ou prostituta. Isto revela que a estalagem tolerava a presença delas, desde que seus clientes não passassem de certos limites. Era muito comum que essas mulheres fossem agredidas por toda uma herança cultural machista e patriarcal. Como eram mulheres acostumadas a tratar com homens sem muito escrúpulos, suas reações podiam levar a confusões. Naquele contexto, as cócegas poderiam ser compreendidas como carícias que fariam as moças rirem alto, ou mesmo como carícias íntimas que pudessem constranger algum padrão de decência. Note-se que eram raros os casos de mulheres viajantes, e quando ocorriam estavam sempre acompanhados de homens, em geral dos maridos.

Bater a caneca na mesa era um hábito comum para pedir mais bebida. Era, porém, deselegante, pois muitas vezes acabava por quebrá-las ou até mesmo danificava as próprias mesas. No contexto ao qual nos referimos, tais canecas eram bastante grandes chegando a aproximadamente um litro, de uma cerveja com alto teor alcoólico. Pode-se deduzir que após tomar a primeira caneca, as condições de embriagues já eram suficientes para o freguês não mais se portar adequadamente.

Brigas de galo eram uma diversão comum de viajantes, e em geral os apostadores perdedores depois de várias rodadas de cervejas acabavam repetindo o que os galos faziam na rinha. Proibi-las era, portanto, a melhor forma de evitar tais confusões na taberna, pois além de trazer muita sujeira com fezes, penas e sangue de galo, eram fontes de discórdia. Era, porém, possivelmente aceitável o jogo de cartas ou de outros tipos, evitando-se conflitos.

Era exatamente para não deixar essas brigas acontecessem, muitas delas resultando em mortes, que se confiscavam as armas de fogo, porretes, punhais e espada durante a hospedagem, sob cuidados do estalajadeiro (recepcionista). O conjunto dessas questões: moças, bebidas, apostas e armas, muitas vezes ocasionava situações de contenciosos extremamente desagradáveis, na qual para defender a própria honra, propunha-se resolvê-los com armas. Para evitar este tipo de problema que sempre resultaria em ao menos um cadáver, o proprietário do estabelecimento prevenia-se com este conjunto de regras.

Vale a pena notar como a inflação é um resultado inerente ao processo de desenvolvimento do capitalismo, ainda mais medida no longo prazo. No cartaz, o custo da hospedagem era de 1 shilling para a pessoa e 4 pences para o cavalo. Entre 1707 e 1971, cada 20 pences equivaliam a um shilling, e cada 20 shillings equivaliam a 1 pound (libra). Na minha viagem, paguei aproximadamente 40 libras (800 shillings ou R$ 120) pela hospedagem e 10 libras (200 shillings ou R$ 30) pelo estacionamento, valores absurdamente maiores do que os de 1786.


Com o desenrolar da Revolução Industrial no século XIX e o surgimento da sociedade de consumo no século XX, o custo de vida seguiu elevando-se a padrões jamais inimagináveis no passado, tanto em termos nominais quanto reais. É muito difícil fazer uma comparação deflacionando o shilling da época para chegar à libra atual por falta de parâmetros adequados. Podemos entretanto considerar pontos que contribuíram para esse inflacionamento como:

a) Inexistindo no final do século XVIII eletricidade, trabalho assalariado regulamentado com direitos trabalhistas, normas de higiene para o funcionamento da hospedaria, impostos, tributos e taxas,  os custos finais de uma hospedagem são drasticamente menores quando comparados aos atuais;

b) Considerando que a diversidade e a circulação de mercadorias na época era extremamente limitada ao comparar com os padrões atuais, pois ainda a industrialização era então incipiente, e que o consumo de massas só viria a começar a ocorrer quase um século e meio depois, os preços em geral tinham valores finais nominais e reais relativamente baixos comparados ao contexto atual;

c) A inexistência de um trabalho assalariado massificado, que só viria a acontecer com o desenrolar da Revolução Industrial, tornava escassa a circulação de moeda comparada aos padrões atuais, e portanto, os preços tinham valores nominais relativamente menores;

Concluímos assim que apesar dos fatores do item a) contribuírem , são os elementos do item b) e c) que fizeram com que houvesse esta grande disparidade entre os preços. Uma maneira de comparação seria se tivéssemos acesso ao valor de algum bem de consumo simples e comum aos dois períodos, como por exemplo um pãozinho. Assim poderíamos estabelecer uma relação de proporcionalidade e grandeza que nos possibilitaria obter resultados aproximados, porém mais empíricos. Contudo, isto foi apenas um curto ensaio de análise de historicidade e não uma pesquisa acadêmica profunda. Fica então a sugestão aos curiosos de plantão.

Hoje esta estalagem é uma hospedaria limpa, organizada, porém simples e humilde. Tem um banheiro coletivo na qual é preciso usar canecão para se banhar porque não se costumava (acho que não se costuma ainda) tomar banho todos os dias. Como em qualquer cidade europeia, o novo convive simultaneamente com o velho, e cartazes como este nos fazem refletir e lembrar o quão a história se move, os valores se renovam e tempo gira. Talvez neste século atual numa velocidade maior do que em qualquer outro tempo histórico.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Da natureza Una, Dual e Múltipla do Todo

A forma pela qual acreditamos e nos relacionamos com o Cosmos sempre refletirá como verdadeira, mesmo que parcialmente, porque o Cosmos é o Todo, em uma realidade que manifesta sua dualidade de ser Una (o Todo) e múltipla (os todos), pois nela todas as infinitas realidades se fazem presentes pelo ternário.

Portanto, se alguém se relaciona com o Cosmos imaginando ele restringir-se a um Deus-Pai (Chokmah) ou a uma Deusa-Mãe (Binah), assim lhe será revelado. Se alguém acredita não existir nada além da matéria (Malkuth), o mundo material lhe refletirá como existência supostamente única. E por isto, não por menos do que pela Lei da Causa e Efeito, toda a realidade torna-se possível, que, apesar de qualquer que seja, não passa de uma realidade parcial.

Porém, quando alguém ousa transcender as visões limitadas por véus seja da religião, do materialismo, da ciência, da ideologia ou de qualquer outro dogmatismo, consegue alcançar níveis arquetípicos de realidades infinitas, cruzar nuvens e nebulosas de planos e dimensões além do cognoscível.

Este é, entretanto, um caminho sem volta, e no qual se deve ter clareza de por onde está voando, pois uma inteligência puramente abstrata ao aplicar-se ao mundo material sem mediações, é conhecida por loucura. Não por outro motivo, a carta mais importante, mais pura e iluminada de todo o Tarô é o Louco, o 0 e o 22, Alpha et Omega, o começo e o fim.

Portanto, de nada adianta a pureza arquetípica se não aplicada à realidade concreta, material, humana e terrena. Sempre vale lembrar que "o que está embaixo é como o que está em cima", porém, quanto mais adensado o estado de bruteza, mais rústico e menos sofisticado se torna. Por isto é necessária mediação do Mago. Só ele é capaz de trazer o Céu à Terra, os planetas aos metais, as estrelas à psiquê.

Ensinamentos do deus Thot, três vezes grande, escriba do verbo divino, e senhor da Ogdoáde de Khmunu.

domingo, 6 de novembro de 2011

Estado, desenvolvimento e ambientalismo


A preservação ambiental é um imperativo da sobrevivência da vida no planeta. Pensar no futuro ignorando a necessidade de se ter uma relação harmoniosa entre homem e natureza, é o mesmo que condenar nossas gerações futuras à um tempo obscuro. No entanto, deve-se ter claro que o ser humano é também parte da natureza, e que apesar dos danos causados por sucessivas atividades predatórias, esta mesma espécie animal tem condições de repensar sua relação com o meio-ambiente, de modo que possa utilizar-se de suas potencialidades de maneira sustentável. Isto, no entanto, não será realizado apenas por empresas privadas que em última instância estão muito mais preocupadas com os lucros, tampouco por ONGs que recebem financiamento de empresas e governos que querem apenas resguardar seus interesses imediatos. A solução parte de políticas de Estado, com leis definidas pelos países e acordos internacionais possíveis de serem respeitados. Portanto, a chave para um processo que equilibre a preservação ambiental, o desenvolvimento econômico e a proteção social é o Estado nacional.

Na década de 1990, após o chamado “Consenso de Washington”, o Estado passou a ser atacado de forma abjeta. Este, que havia sido o impulsionador das economias capitalistas e socialistas, tinha se tornado o grande vilão da época. Dogmas econômicos, até então em desuso, que propagavam o chamado “estado mínimo”, tornaram-se padrões de política econômica, que ao mesmo tempo em que desmontavam os Estados de bem-estar social e transferiam ao controle privado (muitos estrangeiros) setores considerados anteriormente estratégico. O tamanho do desastre de cada país que aplicou tal receituário dependeu do quão aprofundado foram suas reformas. Exemplos como o da Argentina e Venezuela nos anos 1990, e agora da Grécia, Irlanda, Itália, Espanha e Portugal, ilustram o quanto o modelo econômico de ignorar o Estado e confiar exclusivamente no mercado tem sido equivocado. Com a crise do capitalismo internacional que eclodiu em 2008, o Estado voltou a ter o seu protagonismo, seja para salvar bancos quebrados, seja para injetar recursos para manter a economia aquecida. Porém, de nada adianta um Estado que se resuma a atender interesses específicos dos setores dominantes da sociedade, em especial do capital financeiro.

O mundo tal como se encontra neste começo de segunda década do século XXI, herdou as assimetrias dos dois séculos anteriores. Países ricos, chamados de desenvolvidos, possuem monopólio da produção em setores estratégicos, dominam tecnologias de ponta, e alguns deles, inclusive, se auto-advogam o papel de polícia do mundo, intervindo militarmente em países soberanos para fazer-se impor seus interesses econômicos e geopolíticos imediatos. Neste contexto de crise mundial, em que os EUA e os países europeus seguem reduzindo seu poderio econômico, outras potências, ditas emergentes alcançam novos patamares. Os BRICS, grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, são os maiores exemplo desta nova ordem internacional. Estes países, no entanto, possuem sérios problemas estruturais de subdesenvolvimento, pobreza, desigualdade social, e setores econômicos parcialmente desenvolvidos. Desenvolvimento é, portanto, um imperativo para que esses países avancem em seus padrões civilizatórios e garantam ao mesmo tempo uma melhor qualidade de vida à sua população, uma melhora nas assimetrias do mundo.

A lógica capitalista, contudo, tem pressionado o uso irracional dos recursos naturais. À medida que se elevam os padrões de consumo das classes menos favorecidas dos países em desenvolvimento, mais e mais áreas agrícolas e pecuárias têm sido abertas, mais metais e minérios têm sido usado, e mais energia poluente tem sido consumida. Assim, considerando o desafio de ao mesmo tempo superar o subdesenvolvimento e a pobreza, preservando o meio-ambiente, surgiram teorias como a do Desenvolvimento Sustentável e a da Economia Ecológica. Apesar de essas teorias estarem pautadas no padrão capitalista de desenvolvimento, suas maiores colaborações têm sido estabelecer diálogos para se chegar a um meio termo entre uma visão puramente predatória e outra puramente preservacionista. São, dessa forma, importantes passos conquistados.

É mais do que necessário ter em vista que o homem estabeleça com o planeta uma relação mais harmônica. Isto será realmente possível quando se houver um entendimento daqueles que levantam a bandeira do ambientalismo e daqueles lutam pelo trabalhador e pelo desenvolvimento nacional. As duas bandeiras não são contraditórias, apesar de o sectarismo dominar o debate em ambos os lados. Porém, este debate não pode ser tratado de forma alguma fragmentado. Querer preservar as florestas e os rios sem levar em conta aqueles que habitam nela, bem como o projeto de desenvolvimento de cada nação, significa transformar em inimigo aquele que pode ser o principal aliado. É uma ilusão imaginar que o arroz e feijão que todo dia o brasileiro consome é algo que surge espontaneamente nas prateleiras de supermercados. Da mesma forma é uma ilusão acreditar que poderemos superar a fome de 7 bilhões de cidadãos do mundo apenas aumentando a fronteira agrícola e pastagens, sem rever padrões de consumo anteriormente estabelecidos. Portanto, sejamos responsáveis com nosso planeta, mas também com nossos conterrâneos. Negar o Estado e o desenvolvimento é um erro grave, e de forma alguma contribuirá para a preservação da vida em nosso planeta.

sábado, 17 de setembro de 2011

Encantos da Inglaterra

A Inglaterra é um país que junto com Gales, Escócia e Irlanda forma o Reino Unido. A presença humana nessas terras ocorre desde o paleolítico. Com o fim da Era Glacial há quase 12 milênios atrás, progressivamente assistiu-se à revolução neolítica. Das cavernas escuras aos campos abertos, a agricultura começou a surgir, e uma nova visão espiritual de mundo surgia. O céu estrelado, o sol e a lua não estavam mais distantes, mas cada vez mais presente com a abertura de imensos círculos de pedras como Stonehenge e Avebury, que além de grandes observatórios astronômicos eram também templos dedicados ao culto à natureza.

Na passagem da Idade da Pedra para as Eras do Bronze e do Ferro, um novo povo passou a habitar a região: os celtas, oriundos do continente Europeu. Essencialmente mágica, essa cultura destacou-se pelo o culto a Deuses e Deusas da natureza, com seus festivais ligados à agricultura e aos ciclos anuais (Cernunno, Morrigan, Bridgith, Belenos, Lugh, etc). Druidas e sacerdotisas evocavam essas divindades usando chifres, adornos, espadas, punhais, bastões, penas e outros objetos de poder através dos quais invocavam os poderes divinos da terra, da água, do ar e do fogo. Com a invasão romana, antigos cultos foram tolerados e novas divindades foram trazidas e cultuadas, dentre as quais vale destacar Minerva com todo o panteão greco-romano, e Mithra, o preferido pelos militares.

Porém, com a conversão de Roma ao cristianismo, a cristianização da Europa e as invasões das hordas saxãs, a ilha começou a se transformar. As lendas de Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda retratam essa passagem, do jovem escudeiro que se tornou Rei, auxiliado pelo Mago Merlin, um remanescente das antigas tradições. Ao resgatar de uma bigorna a lendária espada de Excalibur, Arthur, filho de Uther Pendragon e Igraine, irmão da bruxa Morgana, pôde governar na corte de Camelot, unificando os povos da Bretanha. Junto aos cavaleiros da Távola Redonda, de sua esposa Guinevére, conseguiu juntar a glória da antiga Avalon da Senhora do Lago, à nobre busca pelo Santo Graal. Por trás de cada misteriosa passagem dessas lendárias histórias guardam-se segredos que só podem ser compreendidos meditando sob as ruínas de Glastonbury.

Mas nem só de lenda a terra de Hobin Hood (o ladrão que roubava dos ricos para distribuir aos pobres) guarda encantos. A partir de 1066, com a invasão dos Normandos, as ilhas passaram a ser conhecidas como Grã-Bretanha, e profundas mudanças em sua estrutura ocorreram, com a instalação de uma nova e poderosa dinastia de Reis e Rainhas. Nascia a Inglaterra feudal com seu estatuto jurídico na Magna Carta de 1215, e que surpreendentemente criou em plena Idade Média duas grandes Universidades: Oxford em 1096 e Cambridge em 1231, que em pleno obscurantismo medieval emergiram como pontos de luz para fazerem brilhar o conhecimento de grandes pensadores e intelectuais como Roger Bacon. A língua inglesa com a influência anglo-saxã, celta e normanda (francesa) ia ganhando forma, especialmente quando surgiram as obras de Shakespeare e os doutores de Oxford conseguiram finalizar a tradução da primeira Bíblia, sob patrocínio do Rei James I.

Toda essa efervescente sociedade sentiu a força que emergia de si, a ponto de o Rei Henrique VIII ter a ousadia de romper com Igreja Católica no século XVI e transformar a cultura religiosa do país com a criação do anglicanismo. Isto levou a uma guerra religiosa entre católicos e protestantes, com mártires de ambos os lados. Foi, porém, muito menos violenta do que no restante da Europa, e um subproduto desses conflitos foram as colônias na América do Norte para onde se refugiaram fanáticos religiosos, bandidos e foragidos que viriam a formam os Estados Unidos a partir de 1776.

Mas as estruturas desse país vinham sinalizando que precisavam ser profundamente transformadas à medida que o feudalismo entrava em decadência e os poderes dos suseranos locais passavam a ser cada vez mais subordinados ao poder central do Rei. Como fruto dessa contradição e da oposição entre a vontade do Rei e a do Parlamento, teve início em 1640 uma Revolução, em que o momento mais dramático foi a decapitação do Rei Carlos I em 1649. O líder rebelde Oliver Cromwell governou em um breve período republicano, seguido da restauração monárquica na chamada Revolução Gloriosa de 1688. A crescente burguesia inglesa passava a ter então o Estado e a monarquia como aliados, e as bases políticas estavam dadas para no século XVIII ter início a Revolução Industrial, que acabou convertendo o Reino Unido na oficina do mundo.

Tecido, carvão, ferro, motores a vapor e finalmente a maior de todas as invenções: as ferrovias. Esse progresso econômico parecia não ter limites, e o resultado foi a expansão de mercados mundo afora, transformando o Reino Unido no século XIX no maior império que jamais o mundo viu. O país que inventava o capitalismo colocando em prática as ideias de Adam Smith e David Ricardo, também assistia à selvageria da expulsão de camponeses para as cidades a fim de trabalharem nas mais cruéis e desumanas jornadas de trabalho das fábricas, com trabalho infantil, feminino e disciplina severa. O tempo passava a ser dinheiro, e o maior símbolo dessa transformação são os relógios, visíveis em tantas torres país afora, quando surge o costume notável da pontualidade britânica. Como resistência a esse sistema opressor, surgia o cartismo, o trade-unionismo e o sindicalismo como formas de organização da classe trabalhadora, no mesmo país que serviu como cenário para Marx escrever sua obra-prima: o Capital.

Abria-se um tempo de transformação na ciência e na tecnologia. Surgiam pensadores como Thomas Hobbes (ciência política), Francis Bacon (método científico) e Sir Isaac Newton (física clássica) nos séculos XVII e XVIII; Charles Darwin (evolução), Michael Faraday (químico) e James Maxwell (eletromagnetismo) no século XIX; e Stephen Hawken (Big Bang) no século XX.  Mas para além da ciência oficial, a magia, a alquimia e a cabala eram também objeto de estudos neste país onde em 1717 surgiu a Maçonaria moderna e em 1888 foi fundada a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn). Essa magia que tanto inspirou os ingleses pode ser notada na forma literária por obras como o Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien, As Brumas de Avalon de M.Z. Bradley e Harry Potter de J.K. Rowling, que através da licença poética e de uma linguagem acessível transmitem os valores antigos dos velhos povos que habitaram a região, dando vida às lendas e folclores no país de castelos, torres, magos, bruxas, fadas, anões, elfos, gnomos, trolls, goblins e hobgoblins.

O período de maior glória da Inglaterra foi o do reinado da Rainha Vitória (1819-1901), com seu cotidiano perfeitamente narrado por Sir Arthur Conan Doyle nas histórias de Sherlock Holmes. Foi o grande apogeu da marinha britânica, quando o império britânico foi conhecido como aquele em que jamais o sol se punha, pois estava em todos os continentes do mundo. A síntese disso eram os desfiles com elefantes africanos junto de reis negros vestindo peles de animais, de faquires e gurus indianos usando turbantes junto de tigres domesticados, chineses e árabes trajando vestes tradicionais, e índios americanos e aborígenes australianos se apresentando em Londres para demonstrar a dimensão global do Império.

Mas essa grandeza foi diminuída pela resistência dos povos contra a dominação nas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860) e dos Boxers na China (1899-1900), na guerra dos Boers (1880-1881) na África do Sul, e na pacífica, mas combativa resistência de Gandhi pela Independência da Índia após 1945. Foi, portanto, no século XX, com a I e a II Guerra Mundial, que a Inglaterra combalida e em parte destruída foi perdendo seu poder, deixando de ser um Império e aceitando as independências das colônias. Preocupados com a reconstrução do país, organizaram um Estado de bem-estar social, inspirando-se nas ideias do economista John Maynard Keynes, onde a qualidade de vida e os direitos sociais passaram a ser fundamentais.

Atraíram dessa forma muitos imigrantes das ex-colônias e de outros países menos desenvolvidos. O resultado foi a formação de uma sociedade multiétnica e multicultural, que muitas vezes vê-se no dilema entre aceitar a consequência de seus atos históricos, dos desequilíbrios globais e das guerras (muitas com a participação inglesa), ou de enfrentá-las no âmbito doméstico com leis anti-imigração que punem pesadamente aqueles que buscam uma nova vida nesse país. Muito mais do que uma simples série de atos de vandalismo, os “riots” ou distúrbios que ocorreram no último mês são um sinal claro de algo está errado nessa sociedade, e que somente será possível superá-los se o atual governo abandonar suas visões estreitas e extremistas contra os imigrantes e pessoas marginalizadas no país.

Essa longa trajetória histórica deu à Inglaterra um imenso legado cultural que vem sendo preservado e bem aproveitado. Para além dos desafios internos, a sociedade inglesa e seus políticos devem entender que grande parte do que ocorre em seu país é resultado de um mundo desigual. Por isso, atitudes como participar das guerras do Iraque e Afeganistão à reboque dos EUA, ou fazer intervenções militares como na Líbia jamais ajudarão o país a contribuir para uma ordem global mais solidária. Para a sociedade britânica não bastam casamentos reais e jogos olímpicos, mas a condição concreta para sua população viver bem e superar a atual crise econômica e os desafios sociais de um país que a cada dia deixa de ser a velha Inglaterra para ser um novo país global.