terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A universalidade mítica, política e psicológica da saga Star Wars


Com a tecnologia 3D, foram relançados os seis episódios da saga Star Wars, de George Lucas, para os cinemas. Embora não haja novidade, é uma boa oportunidade rever esta série que influencia gerações desde o final da década de 1970. A universalidade desta obra está em condensar em uma única história, rica em detalhes e beleza, os aspectos mais profundos e obscuros da psicologia humana, as contradições políticas crônicas enfrentadas pelas diversas civilizações, e as recordações dos mitos que compõem a herança espiritual dos povos.



A saga do herói anti-herói, o “anjo caído” levantado

Por mais contraditório que possa parecer a priori, o herói da série é o próprio vilão. Ao ser descoberto pelos Cavaleiros Jedi’s, uma Ordem de guerreiros magos com a missão defender a República Galáctica, o jovem Anakin Skywalker passa a ter um treinamento diferenciado. Inicia-se como Aprendiz Padawan, eleva-se subitamente à Cavaleiro Jedi, mas seu processo iniciático é interrompido antes de tornar-se um Mestre Jedi. Seduzido pelo poder, acredita-se apto a ser maior que a própria morte. O apego o faz escravizar-se ao medo, assim explicado nas palavras do Mestre Yoda: “o medo é o caminho para o lado sombrio; o medo leva à raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio leva ao sofrimento”. E assim, o mais brilhante dos cavaleiros Jedi converte-se ao lado sombrio da Força, e ao tornar-se Darth Vader perde não apenas a mulher que amava, mas todos os amigos que o auxiliaram a tornar-se o que havia sido.

A tragédia de sua queda é estrondosa. Ao aceitar submeter-se ao Lord Sith, o senhor das trevas, seu lado Darth Vader assassinou seu lado Anakin Skywalker. A partir de então deixou de ser um homem bom e justo para se tornar cruel e sanguinário. Passa a perseguir implacavelmente todos os outros Jedi’s na galáxia, e não hesita em matar até crianças. Porém, ao enfrentar seu Mestre Obi Wan Kennoby, aprende que a arrogância tem limites, e que sempre haverá alguém mais poderoso do que ele. Como resultado, perde parte de seu corpo, torna-se metade máquina, metade homem, e a inesquecível máscara de Darth Vader passa a cobrir seu rosto.

O inesperado porém aconteceu. Antes de morrer, sua ex-esposa deu a luz a dois irmãos gêmeos, Luke e Leia, e foi o primeiro quem descobriu que ainda havia bondade no pai. Mesmo reconhecendo ser muito tarde para voltar atrás no que já tinha feito, foi nos momentos finais de sua vida, após ter sido derrotado pelo filho, que pela compaixão de vê-lo sendo assassinado pelo Imperador, Darth Vader praticou seu ato final de heroísmo: destruir o senhor das trevas para morrer junto dele, encerrando assim a linha sucessória dos Siths, e cumprindo a profecia de restabelecer o equilíbrio da Força. Finalmente a máscara de Darth Vader pôde ser retirada, devolvendo-lhe a feição humana, mesmo que deformada, e dando-lhe o direito de que seu último suspiro fosse feito novamente como Anakin Skywalker.




República, Império, Revolução, Nova República: o ciclo infinito


Esta tragédia familiar ocorre sob algo que recobra fatos políticos de importância singular na história das civilizações. A República Galáctica, que ao ser fundada representou a união dos povos, a democracia dos planetas e por milênios manteve os sistemas solares em paz, corroia-se por dentro. Ao mesmo tempo em que a burocracia detinha o poder sob suas decisões políticas, as disputas mesquinhas davam espaço para que a Federação do Comércio, o Clã Bancário e a Associação Tecnológica pudessem formar uma aliança separatista, que daria início às Guerras Clônicas.


Por trás de todo este movimento, sordidamente o Lord Sith infiltrou-se no sistema político, chegando ao posto máximo da República como seu Supremo Chanceler. A partir disto, foi capaz de ter sob seu controle tanto os separatistas quanto os integralistas, e usou a guerra para seus dois grandes objetivos: destruir a Ordem Jedi e converter a República em um Império. A ironia é que no momento em que é fundado o Império Galáctico, o senado ovaciona em pé e sob um estrondoso aplauso o novo Imperador, que seguramente afirma: “enfim, teremos a PAZ”. A mesma paz que sabiamente o diretor soube associar ao ex-presidente dos EUA, George W. Bush, quando Darth Vader disse: “quem não estiver ao meu lado é meu inimigo”. Portanto, mesmo a sublime busca pela paz pode ser usada para os mais mesquinhos objetivos.


De um Império opressor, com uma gigantesca Frota Estelar e uma poderosa arma chamada Estrela da Morte, capaz de explodir um planeta inteiro, surge em seu próprio seio a contradição para destruí-lo: a Aliança Rebelde. Visivelmente em desvantagem desde o início, foi com o poder da fé em suas ideias e princípios, que ninguém menos que o filho de Anakin Skywalker, o próprio Luke Skywalker, foi capaz de destruir a Estrela da Morte e a passar a liderar a Rebelião. Com avanços e retrocessos, vitórias e derrotas, perdas e ganhos, foi sob as mais difíceis condições, numa guerrilha na selva de uma lua florestal, que os rebeldes venceram o Império como fizeram os vietcongs. E assim, o ciclo se completa, com o desafio aos revolucionários vencedores de construírem a Nova República.




A Força: espiritualidade, mito e magia

Anakin Skywalker não teve pai. A mãe virgem simplesmente o concebeu pela vontade da Força. Em sua juventude, levou esperança para aqueles não tinham, e depois de cair na escuridão e reascender na luz, ressuscitou ao lado de seus Mestres Yoda e Obi Wan Kennoby. Ele é, portanto, ao mesmo tempo Cristo como Anakin e Lúcifer como Vader. Isto porque nenhum ser humano é apenas luz ou apenas sombra, mas da contradição desses elementos pode nascer o mais glorioso herói ou o mais terrível vilão. Nas profundezas de sua alma reside a potencialidade de realizar seu caminho de acordo com suas próprias escolhas.

É para orientar nas escolhas corretas que o Mestre Yoda procura instruir o jovem Luke Skywalker a não se deixar cair nos mesmos erros que o pai, Anakin Skywalker. Nos diálogos iniciáticos, como ensinado em qualquer das antigas Escolas de Mistérios, o poder interior reside na fé em si mesmo, no direcionamento da vontade e no domínio das próprias paixões. Significa ter a compreensão racional, porém entregar-se à intuição e dar espaço à fluidez da Força. A Força é a energia que movimenta tudo que existe, é o que dá vida à existência de tudo. A Força domina e ao mesmo tempo é dominada, pois não existe separação entre o Universo “criador” e o Ser “criatura”, porque ambos só existem por estarem simbioticamente conectados. A Força, portanto, é algo muito maior, livre de conceitos doutrinários estruturantes, sendo assim capaz de ser interpretada e aceita tanto por ateus e como por religiosos.

Com a assessoria de Joseph Campbell, George Lucas foi capaz de trazer grandes símbolos e imagens captadas no imaginário social coletivo. Vivendo em uma selva pantanosa, o Mestre Yoda é ao mesmo tempo um xamã e um monge budista, que encontra suas respostas no silêncio da meditação. As crenças politeístas dos povos que vivem na natureza recordam os princípios do paganismo. A já citada saga do herói de Anakin e Luke Skywalker é um misto do culto egípcio de Hórus, do persa Mithra, do hebreu Jesus e do nórdico Thor. Como não podia deixar de ser, os nobres Cavaleiros Jedi em muito recordam os Templários, bem como suas iniciações em três graus remetem ao sistema maçônico. Por fim, a unidade de todas essas crenças e mitos ocorre em uma galáxia mais do que “globalizada”, onde todos os tipos de raças e espécies de seres alienígenas aprendem a conviver com suas diferenças e limitações.



Há muito tempo atrás, numa galáxia distante...

Apesar de todos esses eventos terem ocorridos em outro espaço-tempo, sua mensagem condensa as três buscas do ser humano no aqui-agora: a) conhecer a si mesmo, a partir do entendimento da dualidade entre o certo e o errado na busca da construção de si mesmo enquanto herói; b) do desafio de organizar-se coletivamente compreendendo as contradições do sistema político e econômico, e entendendo-os como cíclicos e transitórios, passiveis de serem transformados; c) a busca por algo além da própria existência, que dê o sentido a todo o teatro montado para a vida e para a representação de cada um como um personagem no grande palco universal.


São por esses fatores que as duas trilogias da série Star Wars servem para todas as idades, para todas as gerações e para todos os povos do planeta. Porque todos vêem nela um pouco de si, de seu país e de suas crenças. Com a ousadia de integrar todas elas, esta é sem dúvida uma das maiores obras artísticas de todos os tempos.


E que a Força esteja com todos!


3 comentários:

  1. Vai ter que aturara como frequentadora assídua. Adorei a interpretação!
    Abraços,
    Valéria Cruz

    ResponderExcluir
  2. Sempre entro em seu blog pra ler esse texto, gosto muito.
    Abraços, Karina.

    ResponderExcluir